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Foi assim que eu desisti do jornalismo.

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Sankofa nasceu de uma inquietação. Aliás, primeiro, de uma desistência. Era 2018 e eu havia desistido do jornalismo. O ritmo alucinado das redes sociais e o imediatismo do hard news me levaram a uma grande crise pessoal e profissional.

Eu não me identificava com o que estava sendo produzido por mim ou pelos outros profissionais. Não havia espaço para a inovação, para as mulheres, para as pessoas pretas fora do 20 de novembro, para indígenas além das pautas de meio ambiente. Eram sempre os mesmos engravatados produzindo notícias, todos os dias.

Nos sites e redes sociais, era (e ainda é) importante ser o primeiro a dar uma notícia. Nem sempre verificada, nem sempre confirmada. Se estivesse errada, o veículo publicaria uma retratação, simples.

Eu não queria escrever retratações. Eu queria ter tempo. Escolher os melhores entrevistados, não aqueles que puderam responder dentro das poucas horas em que foram questionados. Queria conhecer pessoas que não eram velhas conhecidas dos produtores. Queria não precisar picotar a fala de alguém para caber no VT de 30 segundos. Queria outros olhares.

Foi assim que eu desisti do jornalismo.

Durante meses pensei em que carreira seguiria, mas a vontade de contar histórias ainda estava ali, latente.

Um dia ela se manifestou. E eu percebi que eu teria que construir o caminho que eu gostaria de trilhar. Percebi também que os Direitos Humanos seriam meu guia. E que não faria sentido falar em Direitos Humanos sem dar voz ao povo preto, as mulheres marginalizadas, aos povos indígenas e quilombolas, à população LGBTQIA.

Deixei que a ideia amadurecesse durante um ano. Nesse tempo, descobri que existe um símbolo concebido pelo povo Akan que abarcava todo o significado que eu buscava. Não era uma letra ou uma palavra, apenas. Um pássaro, que voa para frente, mas busca o seu ovo, o passado. Ele nos mostra que é possível voltar e pegar aquilo que realmente importa e que ficou para trás. Que devemos conhecer o nosso passado para traçar um caminho para o futuro. Olhei para trás e resgatei o jornalismo. Olhei mais um pouco e percebi que eu tinha toda a ancestralidade africana para me amparar e me inspirar. Assim nasceu Sankofa.

Aqui, você não vai encontrar atualizações diárias sobre o que acontece no mundo. Para isso você pode contar com outros portais. Aqui, você também não vai encontrar manchetes sensacionalistas, caça-cliques. Aguarde reportagens e artigos aprofundados. Pode ser que você gaste uns minutos a mais lendo as matérias e navegando pelo site. Não precisa ter pressa.

Esqueça as regras da ABNT, a narrativa excludente e o conhecimento branco ocidental como a única resposta para as perguntas da ciência e do ser humano. Prepare-se para narrativas diferentes, para a valorização do conhecimento ancestral, para a palavra falada que tem peso como a palavra escrita.

Sankofa foi pensado para dar voz à diversidade. É um portal de nicho, sim. As matérias são pautadas com base nos Direitos Humanos e tudo que florescer dessa grande árvore. Também por isso, a maior parte da equipe de trabalho e de pessoas entrevistadas vai ser sempre formada por pessoas pretas, famílias neurodiversas, pessoas com deficiência, povo de santo e muito mais. É uma forma de buscar o outro olhar que eu contei no início.

Em nome de toda a equipe, dou a você as boas vindas. Que você saia daqui com boas experiências. Talvez, sem as certezas que tinha antes. Certamente, com novas inquietações.

Ericka Guimarães