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Em se plantando, tudo dá: conheça iniciativas que visam a produção e valorização de plantas nativas do cerrado

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Ao chegar no Parque da Cidade Sarah Kubitschek, um dos pontos turísticos da capital do país, os visitantes são recebidos por uma frondosa floresta de árvores pinus. Ela ocupa cerca de cinco hectares do total de 20 do parque. O que nem todas as pessoas sabem é que essa não é uma espécie nativa da região. Elas foram trazidas por europeus e norte-americanos para o país na década de 1940. A vegetação nativa do local é a do cerrado.

O bioma, segundo maior do Brasil, é caracterizado pelas árvores de troncos grossos e retorcidos, além das gramíneas e arbustos. Mas não é só isso. O cerrado possui bastante biodiversidade e grande potencial aquífero. Contudo, é um dos biomas brasileiros mais ameaçados. Por isso, especialistas defendem que é preciso pensar em soluções para a preservação dele, a começar pela valorização da vegetação nativa nos espaços públicos de Brasília. Elencamos algumas iniciativas que já existem.

O cerrado

O cerrado ocupa cerca de 22% do território brasileiro, além de alcançar o Paraguai e a Bolívia. Mais de 11 mil espécies vegetais são encontradas aqui, sendo 4 mil existentes apenas nesse bioma.

Os verões são chuvosos, enquanto os invernos são secos. As pessoas desavisadas costumam sentir na pele, no nariz e na boca essa combinação tão característica, já que a umidade relativa do ar pode chegar a 15%, que é semelhante a de um deserto.

O espaço é berço das maiores bacias hidrográficas da América do Sul. As Bacias Amazônica, do Prata e do São Francisco nascem por aqui. Além disso, a região conta com enormes aquíferos, formação que armazena água de forma subterrânea, como o Guarani e o Bambuí..

O cerrado também é lar de mais de 80 etnias de povos indígenas e cerca de 44 comunidades tradicionais quilombolas. Eles, que vivem diretamente do cerrado, são as maiores testemunhas do desmatamento que o bioma vem sofrendo, além de serem alvos do agronegócio.

Cerrado e desmatamento

Apesar de toda a importância, o Cerrado e seus habitantes correm sérios riscos, pois 45,6% da vegetação original foi alterada nas últimas décadas. A área é extensivamente utilizada como pastagens e para a produção de milho, soja, algodão e cana. Essas mudanças fizeram a temperatura no Cerrado aumentar 4ºC desde 1960. A consequência disso é o aumento das queimadas, extinção de fauna e flora e diminuição da disponibilidade de água.

A bióloga Karlla Aparecida Ribeiro, da cidade de Cabeceiras, em Goiás, aponta alguns motivos para a falta de reconhecimento da importância do cerrado. Segundo ela, muitas pessoas veem o Cerrado como apenas ‘mato’, lugar de árvores tortas e seca. “A maior parte da população vive em cidades, então observa-se um crescente desligamento da relação pessoa – ambiente, muitos não têm contato e não conhecem o ambiente que vivem”, explica.

Em consequência disso, para Ribeiro, que é ativista na página A Vida no Cerrado, não há um desenvolvimento afetivo com o lugar e tudo o que ocorre no ambiente não faz diferença. “Uma frase utilizada por muitos é a ‘conhecer para preservar’, gosto de dizer que as pessoas só preservam e lutam por aquilo que elas conhecem e amam”, afirma.

Lutar contra o agro, que não tem nada de pop, não é tarefa fácil. Contudo, existem iniciativas locais que podem ajudar a resgatar uma parte dessa vegetação e do amor por ela. O Distrito Federal, por exemplo, possui políticas públicas de produção e plantio de mudas de espécies nativas.

Cerrado no DF

árvore tradicional do cerrado. foto mostra ipê roxo, com uma fila de carros abaixo dele
Foto: Agência Brasília

De acordo com dados disponibilizados pela Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap) via Lei de Acesso à Informação, foram plantadas 283.745 mudas, nos últimos 3 anos, no DF. Porém, a distribuição não é homogênea. No mesmo período, a Região Administrativa de Brasília recebeu 83.060 plantas. Lago Sul aparece com 33.446. Enquanto isso, Itapoã recebeu 723 mudas e Fercal apenas 47, sendo essas plantadas entre 2016 e 2017.

Não é coincidência que as primeiras e as últimas R.A. desse ranking sejam separadas por um grande abismo de renda. O Lago Sul, por exemplo, é uma localidade conhecida pelas suas mansões à beira do Lago Paranoá. É morada de parlamentares e ministros. Por outro lado, Fercal conta com o menor nível de acesso a saneamento básico do Distrito Federal.

Iniciativas para revitalização do cerrado no DF

A advogada e mestranda em Direitos Humanos Ilka Teodoro é administradora do Plano Piloto desde 2019. De acordo com a brasiliense, o plantio de mudas exóticas traz diversas desvantagens para o ambiente local.

“Arcamos com as consequências como a interferência nas redes de águas pluviais e elétrica, o aumento do risco de desabamentos e queda de árvores, que causam enormes prejuízos às pessoas e aos patrimônios”, diz. Para ela, o grande desafio é informar a população e órgãos de governo responsáveis sobre a importância de priorizar as espécies nativas, pois todos ganham com isso. “A gestão pública economizaria, e o meio ambiente e a população se beneficiariam”, defende.

Jardins do Cerrado

Teodoro relata incentivar todas as iniciativas que visam o estímulo da produção e do plantio de espécies do cerrado. Em 2020, por exemplo, a Asa Norte foi precursora do projeto Jardins do Cerrado, da arquiteta Mariana Siqueira, que levou mudas do cerrado para uma rotatória. No entanto, todos foram surpreendidos negativamente ao encontrar essa rotatória depredada dias depois, com as plantas arrancadas. Mas a semente do paisagismo feito com plantas do cerrado já havia sido plantada, e Ilka resolveu levá-la também para sua casa.

“Então, o cerrado está no meu DNA. Algo meio telúrico, meio ancestral. Me constitui, me conforma e me molda”. Em 2014, ela e o marido decidiram construir uma casa de fim de semana na chácara que possuem em Sobradinho. Queriam algo conectado ao Cerrado e a Brasília, à arquitetura da cidade e a sua paisagem.

“Eu tinha conhecido um hotel no Uruguai com um paisagismo incrível. Decidi que eu queria algo semelhante. Procurei alguém que topasse encarar a tentativa e conheci a Mariana Siqueira. Ela disse que achava ser possível fazer com plantas nativas daqui, mas precisava de um tempo, pois iria trabalhar com experimentos”, relata.

Foto: Joana França para The New York Times Style Magazine

Desde 2015, as duas tem essa parceria, plantando sementes e mudas de cerrado, e colhendo folhas e flores a cada estação. “Por coincidência, a mentora de Mariana é Amalia Robredo, a paisagista responsável pelos jardins que me impactaram e inspiraram no Uruguai. Acho que tinha que ser. Tava escrito”, conta. A experiência foi tão produtiva que saiu no The New York Times Style Magazine.

Filhas da Terra

A iniciativa Filhas da Terra também busca a educação ambiental e o incentivo à preservação do cerrado. Composto majoritariamente por mulheres negras, as ações do coletivo são voltadas para a periferia. Elas oferecem oficinas, palestras e também o plantio de mudas em áreas com vegetação nativa degradada, mutirões de limpeza e a criação de hortas urbanas em espaços ociosos da cidade.

Cerrado Agroecológico

Foto: Occa Agroecologia

A Organização Coletiva do Cerrado Agroecológico representa um grupo de agricultores familiares que encontraram na vegetação do cerrado uma forma de renda e de oferecer alimentação saudável para a população local. Assim, o coletivo produz cestas de produtos orgânicos, com incentivo aos alimentos típicos do cerrado.

Denise Silva trabalhou durante seis anos em projetos de pesquisa e extensão na Universidade de Brasília (UnB) de Planaltina, que envolviam frutos nativos e agroecologia. Em 2014, ela resolveu produzir alimentos com frutos do cerrado. Em 2016, tornou-se agricultora. De acordo com ela, os segredos do cerrado são cada dia mais conhecidos.

“Os frutos do Cerrado têm personalidade forte, têm gosto e cheiro únicos, alguns são amados e odiados ao mesmo tempo, como o caso do pequi. Fora os nutrientes que, muitas vezes, são menos conhecidos e muito mais potentes do que em alimentos mais comuns. Por exemplo: o baru tem mais ômega do que a maioria das castanhas, e o buriti tem mais betacaroteno que a beterraba”, afirma.

O projeto também tem uma parceria com comunidades tradicionais, como os Kisêdjê, indígenas que habitam o Parque do Xingu, e os Kalunga, comunidade quilombola situada em Goiás.

“Essas comunidades nos ensinam a viver de uma maneira que quem vive na cidade não tem a menor noção. Dá pra se viver bem tendo poucos recursos financeiros, mas com uma riqueza de plantas e bichos que alimentam muito mais, pois, além de saciar a fome, alimentam nossa alma. O respeito pela natureza e por manter o Cerrado em pé…pelo alimento sem veneno ou com produtos químicos”, relembra.

“Esta reportagem é uma produção do Programa Sala de Redação, realizado pela Énois – Laboratório de Jornalismo, do projeto Jornalismo & Território, com o apoio da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, Porticus e Open Society Foundation”.

Ericka Guimarães

Idealizadora de Sankofa. Jornalista. Daquele pessoal dos Direitos Humanos.

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