saúde mental: Atleta Simone Biles acena para o público com medalha no pescoço. Ela usa casaco azul com mangas vermelhas e cabelo preso.
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Assim como Simone e Naomi, precisamos falar de saúde mental

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Tempo de Leitura: 4 minutos

O ano era 2013. Eu trabalhava na empresa dos meus sonhos, mas num péssimo setor. Horas antes do início da minha jornada, eu começava a sentir o coração acelerado, uma tristeza sem limites. Chorava no trajeto quase todos os dias.

Em 2016, eu entrei em colapso. Cheguei atrasada no trabalho por causa de uma greve dos metroviários e minha chefe me chamou para conversar. Foi uma conversa dura. Eu tinha chegado bastante atrasada. E aí, ao abrir a boca para falar dos meus argumentos, que eram justos, eu comecei a chorar. E não parei por duas horas seguidas. A chefe me mandou pra casa, com a condição de que eu iria me acalmar e buscar ajuda psicológica.

Faz 5 anos o tal colapso. O ano de 2016 ficou marcado na minha memória como o pior da minha vida. É claro que nem tudo foi causado pelo trabalho. A gente tem uma bagagem que vem carregando ao longo da vida. Hoje, depois de anos de terapia, vejo que eu já dava indícios de ansiedade desde criança. Eu era famosa por chorar por qualquer coisa. E eu chorava mesmo. Porque tudo me aterrorizava.

Hoje eu gasto, em média, 150 reais em remédios, por mês. Além de plano de saúde e consultas particulares com psiquiatra. Mas já foi mais. Teve uma época que cheguei a deixar 500 reais na farmácia e voltar chorando pra casa com uma crise de ansiedade.

O que eu lembro é que era tudo muito solitário. Eu pegava atestados psiquiátricos e não contava para as pessoas porque não estava indo trabalhar. É difícil explicar uma doença que não se mostra fisicamente, que não dá pra apontar onde dói. Até porque dói tudo. Mas não tem ferida. Não tem exame. E ainda tinha o estigma de que depressão era frescura. Era só comer melhor, praticar atividades físicas, pensar positivo.

Foi nesse ponto que os relatos dos atletas nas Olimpíadas foram gatilho para as coisas do meu passado. Se depressão é só questão de comer bem e fazer exercícios, porque os atletas também têm depressão?

Naomi Osaka é uma mulher negra, com cabelo crespo. Ela usa uma viseira azul e o cabelo preso. Seu uniforma também é azul. Na foto, ela está de lado, em frente a um microfone.

Naomi Osaka, escolhida para acender a pira olímpica em Tóquio, fala sobre como sentiu o ápice da depressão e ansiedade em 2018, depois de ganhar o seu primeiro Grand Slam. Ela venceu Serena Williams e foi vaiada por centenas de pessoas. Em 2021, ela abandonou Roland Garros para cuidar da saúde mental e também pulou Wimbledon. Nos Jogos Olímpicos, ela surpreendeu ao ser eliminada logo no início da competição.

A americana Simone Biles fez ainda mais barulho ao abandonar as competições de Tóquio para cuidar da saúde mental. Ela, que é uma estrela da ginástica, decidiu se afastar para “cuidar de seus demônios”. “Existe vida além da ginástica”, lembrou. O que mostra que não tem fama ou dinheiro no mundo que valha a pena o desgaste. O que jornais e comentaristas muitas vezes deixam de lembrar é que Biles foi vítima de abuso sexual do seu próprio médico, Larry Nassar. Ela é uma entre as 150 vítimas do ex-profissional. Uma delas chegou a cometer suicídio. Todas as instituições que deveriam proteger as atletas, fingiram não ver as denúncias, inclusive o comitê olímpico dos EUA.

O que eu sinto que causa surpresa nesses casos é que as pessoas não sabem o peso da saúde mental não só para o desempenho esportivo, mas para a vida. Elas entendem um tornozelo torcido. Talvez porque tenha uma marca física, incha, fica roxo, atletas choram. Mas a dor da saúde mental destroçada é ignorada. Lembro, em 2016 ou 2017, quando torci o pé e fiquei genuinamente feliz. Eu estava ali bem pertinho do fundo do poço mas ninguém via, eu acho que não dava muitos sinais. Mas com um tornozelo lesionado eu tinha algo validando uma dor. Mesmo que não fosse aquela que mais doía. Eu ia poder ficar em casa sem levantar da cama em paz.

Só em 2021 eu tive coragem de abrir uma parte do meu “segredo” para a minha família. Falei que era bipolar, que tomava remédios há vários anos. Que já estive muito mal, mas que hoje tô bem, me cuidando. Não sei quantos sabem, mas eu também abri mão do meu emprego dos sonhos para cuidar da saúde mental. Essa é uma luta de milhões de brasileiros. Me comovo especialmente com as pessoas que não tem a opção de abrir mão daquilo que faz mal. Aquele ditado que dinheiro não traz felicidade só pode ter sido escrito por uma pessoa que não precisa trabalhar para pôr comida na mesa da família.

A situação que a gente vive também me fez piorar bastante. 500 mil mortos, governo que parece se esforçar para ver a população morrer. Isolamento, pessoas queridas lamentando a morte precoce de seus familiares, o medo de ficar doente, o medo de morrer. Planos de vida suspensos. A comida cada dia mais cara. É difícil não se deixar abalar por essas coisas.

Dia desses, abri mão de um freela porque ele me deixou em um ponto de ter taquicardia só de ouvir a notificação do aplicativo de mensagens. Disse que precisava me afastar por questões de saúde. Não disse que era mental. Afinal, saúde é saúde. Hoje em dia, eu reconheço aquilo que me tira a paz. E nada disso é questão de fraqueza. Desistir para cuidar de si é uma das maiores forças que a gente pode demonstrar.

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Ericka Guimarães

Idealizadora de Sankofa. Jornalista. Daquele pessoal dos Direitos Humanos.

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