Foto em preto e branco. Pessoa negra de óculos e de cabelos crespos e curtos lê o jornal. As paredes do cômodo estão forradas com folhas de jornal.
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Por um jornalismo antirracista

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Tempo de Leitura: 3 minutos

Desde o meu primeiro incômodo com o jornalismo até Sankofa criar corpo e existir fora da minha cabeça, eu penso em como as bases do jornalismo, o exercício diário da escrita, da voz nas matérias de rádio, dos rostos na TV são excludentes. O rosto que está na frente das câmeras é branco. As chefias são brancas. As pautas são pensadas por pessoas brancas. A diversidade só é lembrada quando interessa para a pauta, como uma pessoa com deficiência para ilustrar uma matéria sobre o tema ou uma pessoa negra para falar de casos de racismo ou para aparecer diante das câmeras e nas redes sociais no mês da Consciência Negra. No resto do ano, é tudo branco.

O jornalismo não é imparcial. Isso é papo furado de uma pretensa isenção diante dos fatos, como quem diz “olha, estou apenas informando você sobre o ocorrido, tire suas próprias conclusões”. É errado. E prepotente.

Não existe imparcialidade porque os seres humanos não são imparciais. Por isso, o jornalista também não é. A escolha do que é noticiado é feita por uma pessoa com uma vivência. Diante de uma infinidade de pautas e histórias acontecendo no mundo, uma chama a atenção do profissional. Essa escolha (e também a não-escolha) é mediada por todas as vivências anteriores. O lugar que ela mora, a comunidade em que ela está inserida, a classe social, a cor da pele, as condições financeiras, os livros, filmes e séries que ela acompanha, os relacionamentos que teve, os estudos que pôde fazer. Tudo isso interfere na escolha e na condução de uma matéria. É como a clássica matéria sobre manifestações. Enquanto a população luta por direitos, os jornalões mostram como as manifestações atrapalham o trânsito. Você acha que o manifestante, se tivesse a chance de pautar um veículo de comunicação, escolheria falar do engarrafamento? Provavelmente, não.

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Por isso é preciso que as pessoas que fazem parte do jornalismo representem o mundo em que elas vivem. Uma redação formada, em sua grande maioria, por pessoas brancas, não representa o mundo em que ela está inserida e sobre a qual reporta suas notícias. É preciso haver diversidade. É preciso representatividade. Tem uma frase que eu uso muito por aqui, que é “a cabeça pensa onde os pés pisam”. Eu não me canso dela. Enquanto o jornalismo for formado por pessoas brancas, ele vai retratar os pontos de vista e as vivências das pessoas brancas. 

Com essa pretensa imparcialidade, o jornalismo ignora as profundas diferenças que existem em nossa sociedade. Finge não ver o racismo mas dá voz a ele. Trata pessoa preta presa em posse de drogas como traficante. O branco que é preso com quilos de drogas num aeroporto não é traficante internacional. É apenas jovem, tem nome e profissão. As pessoas que lutam por equidade são consideradas radicais. As racistas e homofóbicas ganham as manchetes sem qualquer adendo ao crime que cometem. Se o assunto não é raça, os entrevistados são brancos. Como se racismo fosse o único assunto sobre o qual as pessoas negras sabem falar.

O discurso e as atitudes precisam mudar. Se você olha ao seu redor na sua redação e não encontra pessoas negras, o seu ambiente foi excludente com elas. Se a sua matéria só tem entrevistados brancos, você excluiu pessoas negras da possibilidade de compartilhar seus conhecimentos e de fazer o seu público se sentir representado. Se todos os apresentadores e chefes são pessoas brancas, o seu ambiente além de excludente, pode ser opressor. Faça o exercício, olhe em sua volta. Quantos colegas de trabalho são pretos, quantos são brancos? Quem faz parte das reuniões de pauta? Estão considerando fazer recorte de gênero, classe social e raça nas matérias?

Você pode até não ser racista. Mas isso é o mínimo. Não merece aplausos. Isso é o que se espera de um ser humano.  É preciso combater, é preciso levantar a voz, não ser conivente com o discurso racista. É preciso ir além e desfazer as estruturas. A voz do povo preto não deve ser de responsabilidade apenas dos portais de nicho. A voz do povo preto deve ecoar em todos os meios de comunicação e a responsabilidade de fazer essa voz chegar em outras pessoas é também dos brancos. O jornalismo precisa de mais que profissionais que não sejam racistas. A profissão precisa de jornalistas assumidamente antirracistas.

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Ericka Guimarães

Idealizadora de Sankofa. Jornalista. Daquele pessoal dos Direitos Humanos.

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Foto em preto e branco. Homem negro beija outro homem negro na bochecha, com pose levemente inclinadapara trás. Apenas o homem que está sendo beijado olha para a câmera.
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