educação antirracista: menina negra tem aula em frente ao computador, com um professor também negro
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Educação antirracista e o perigo da história única

A necessidade de uma educação antirracista pode ser pensada em duas perspectivas: a primeira num olhar de representatividade e de reconhecimento de nossa história e a segunda pensando na escola enquanto espaço social onde nossas primeiras relações são estabelecidas.

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Tempo de Leitura: 4 minutos

Quando eu estava na 4º série, ali em meados dos anos 90, havia uma professora pela qual eu era apaixonada. Hoje, 25 anos depois, a explicação chegou: ela era meu espelho. Mesmo corpo, mesmo tom de pele e com os cabelos cacheados que eu tinha, mas que só aprendi a amar agora. Hoje me tornei professora e compreendo perfeitamente porque a representatividade tanto importa.

Naquela época não me recordo de histórias infantis no qual os personagens eram negros. Desenhos animados e os clássicos nas fitas cassetes também não faziam esse papel, e quando falamos da televisão, esse cenário piorava. Minhas e (nossas) referências na infância em nada se pareciam com a gente e ainda reforçavam o sentimento de que algo estaria errado. Era difícil uma criança negra crescer se amando, quando tudo que é apresentando se mostra o contrário, formando um conceito de belo que em nada se parece com ela.

Na escola, as lembranças se restringiam ao povo escravizado (nomenclatura usada hoje porque antes era só povo escravo), que muito sofreu e que a África era o lugar das mazelas. Nunca aprendi sobre reinos africanos, príncipes e princesas. Não sabia nada sobre a cultura, a música, as roupas, as comidas. Em muitos momentos o que era ensinado, era a África selvagem; savanas e muitos animais: uma realidade, mas não era só ela. O perigo da história única, como diz Chimamanda. A aula de artes, momento amados pelas crianças, podia ser tornar um martírio de falta de reconhecimento quando tínhamos que pintar da cor da pele. E minha pele era rosa? E cor da pele era só uma? Literatura com escritores e contos africanos nunca se ouviu falar. Nossa história foi queimada e retirada de nós e na escola, espaço para o qual essa história deveria ser devolvida, mas acaba por virar um espaço maior de segregação.

Então, se reconhecemos o racismo no Brasil como um racismo de marca, que vê primeiro o tom da pele e o cabelo e se uma criança chega à escola e não encontra referências da sua história em seu processo de escolarização e por fim, seu amiguinho branco também não conhece outras histórias e versões, cenas de discriminação racial serão facilmente vistas e perpetuadas. É nesse contexto que entra a necessidade de uma educação antirracista.

Recordo-me, em sala de aula, já na posição de professora, em uma das aulas, conversando com meus alunos de 9 anos sobre a abolição da escravatura e no livro dizia assim “ Após a abolição da escravidão, não houve nenhuma assistência do governo para integrar os escravizados libertos à sociedade, de forma que se tornassem cidadãos plenos. Muitos dos ex-escravizados não tiveram acesso à terra e à educação, e ainda tiveram que conviver com a discriminação e o preconceito da sociedade”. Por um instante parei e pensei que o cenário estava mudando e que não bastava eu “repassar” essa informação, era necessário que eu compreendesse minha identidade social e desenvolvesse naquelas crianças a consciência e a crítica, para que elas entendessem sua história, com vista em seus futuros.

A educação tem seu papel muito bem definido, com objetivos também muito bem traçados e como diria Paulo Freire “Não existe educação neutra, toda neutralidade afirmada é uma opção escondida”. Então o entendimento é simples: Se você, professor (a), não sabe quem é você, sua função social, seus privilégios, não tem conhecimento da nossa história e vive em um mundo romantizado, afirmando que o racismo não existe, dificilmente conseguirá colher frutos de uma sociedade na qual as pessoas negras serão tratadas com respeito. Existe um ditado iorubá que afirma que “Exu matou um pássaro ontem, com uma pedra que jogou só hoje”.  Fazer uma educação antirracista hoje é a nossa tentativa de mexer no nosso passado e colher, quem sabe, transformações profundas.

Leia também: Práticas de direitos humanos para ensinar para as crianças

A tão conhecida e perpetuada frase de Angela Davis que afirma que “Não basta não ser racista, é necessário ser antirracista” é de fundamental importância e reflexão quando falamos de educação.  Não é mais suficiente estar em sala de aula e se afirmar não ser racista se em todas as histórias que você conta, os personagens são brancos, com cabelos loiros e olhos azuis. De nada adianta não ser racista se o filme que você passou em sala para uma discussão não há protagonismo negro.  Ou se você entende que a história do povo negro começou quando chegaram ao Brasil. O professor hoje necessita de uma pedagogia engajada, como diz Bell Hooks, pois esta não busca simplesmente fortalecer e capacitar os alunos. Toda sala em que for aplicado um modelo holístico de aprendizado será também um local de crescimento para o professor, que será fortalecido e capacitado por esse processo.

Nesse contexto, vale a reflexão sobre a quantidade de professores (a) negros (as) que tivemos no decorrer da nossa vida escolar. E olha que não são poucos anos. Hoje, com o Ensino Fundamental de 9 anos, somando a Educação Infantil e mais os três anos no Ensino Médio, são 15 anos. Recordo-me de duas.  No processo de educação antirracista é preciso se pensar também na hierarquização dessas funções na escola e que só reafirmam os estereótipos.

O racismo no Brasil está na música, no nosso vocabulário, nas piadas, nos nossos livros, na televisão, nos filmes e até nos nossos livros didáticos. Então, se nós enquanto educadores, não pensarmos em uma educação para transgredir, dificilmente mudanças acontecerão.

A necessidade de uma educação antirracista pode ser pensada em duas perspectivas: a primeira num olhar de representatividade e de reconhecimento de nossa história e a segunda pensando na escola enquanto espaço social onde nossas primeiras relações são estabelecidas. A Lei 10.639/03 alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) e incluiu a obrigatoriedade do estudo da História e Cultura Afro-Brasileira e Africana.

A inserção desse parágrafo é fundamental para que a prática pedagógica do professor seja revista e repensada. Há alguns anos não havia material disponível sobre o tema, nem filmes, livros e geralmente um professor (a) que já era engajado no tema era o responsável por disseminar ou mediar essas discussões sobre esse assunto. Mesmo anos depois da inclusão dessa ação, muitos professores mantém seus discursos e práticas que reforçam o preconceito em sala de aula.

Paulo Freire, que sempre nos trouxe essas reflexões, na qual a escola deve proporcionar o pensamento crítico e a construção do conhecimento, compreendendo em qual sociedade se vive e qual seu papel dentro dela. E é assim que uma educação antirracista deve acontecer, ensinando de uma maneira que transforma, promovendo uma livre expressão tencionando a prática da liberdade.

Sobre práticas antirracistas, leia também: Por um jornalismo antirracista

Natália Delamarte é mulher negra, pedagoga, especialista em tecnologia e educação aberta e digital, defensora da escola pública e antirracista.

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