Gentrificação

De que falamos quando falamos de gentrificação?

De uns tempos para cá, o termo "gentrificação" tem sido usado com mais frequência para falar de coisas que acontecem em nossas cidades. Parece que tem alguma coisa a ver com cafés e cervejarias artesanais, mas não é (só) isso. Por Carolina de Andrade

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Tempo de Leitura: 4 minutos

O que é gentrificação, afinal?

Gentrificação é o processo em que moradores de um bairro são indiretamente expulsos pela chegada de residentes de classes sociais mais altas. O termo – uma brincadeira com gentry, palavra inglesa que significa pequena nobreza – foi criado pela socióloga britânica Ruth Glass para nomear essa dinâmica, encontrada por ela em bairros centrais de Londres na década de 1960.

Tipicamente, esse processo acontece em bairros considerados degradados e que, por esse motivo, são preteridos pelos segmentos médios e altos da sociedade como lugar de moradia. Isso deixa livres imóveis relativamente baratos em uma área com infraestrutura urbana já estabelecida, atraindo moradores de classe média baixa, para quem a combinação de preços baixos, boa oferta de transporte e proximidade das regiões que concentram empregos é especialmente oportuna.

A presença dessas pessoas dá nova vida aos bairros, contribuindo para a reversão da imagem de degradação e fazendo com que essas áreas entrem no radar das classes mais altas e também de investidores imobiliários, interessados no potencial econômico desses locais.

Com o tempo, os custos de vida em elevação fazem com que os “pioneiros” do bairro ­– aqueles que escolheram ocupar aquela área quando ela era pouco atraente para os mais ricos – precisem se mudar para regiões mais baratas, geralmente mais afastadas do centro e com menor oferta de equipamentos urbanos e culturais.

O caso brasileiro

No Brasil, a discussão sobre gentrificação é principalmente acadêmica – ao contrário de outros lugares, como os Estados Unidos, em que o tema aparece com frequência na mídia, ou em Portugal, onde “gentrificação” foi candidata a palavra do ano em 2017, provavelmente por conta do boom do turismo no país na época, que teve sérias consequências imobiliárias.

Por aqui, pesquisadores têm estudado gentrificação desde os anos 1980. A maioria dos casos identificados têm alguma relação com intervenções do poder público para revitalizar centros históricos degradados: governos intervêm em áreas consideradas degradadas para requalificá-las e atrair novos moradores e estabelecimentos comerciais, provocando gentrificação na área – intencional ou acidentalmente.

Foi o que ocorreu em Salvador: quando as famílias mais ricas se mudaram para mais perto da praia, a região do Pelourinho, no centro da cidade, passou a ser ocupada por uma população considerada indesejável: famílias pobres, trabalhadores informais, prostitutas. O projeto de revitalização do Pelourinho tinha o objetivo de estimular o turismo no bairro e incluiu o despejo de parte daqueles moradores.

Além da capital baiana, casos de gentrificação foram identificados em várias cidades do país, desde capitais como São Paulo, Belém e Recife a cidades como Gramado (RS), Santos (SP) e Chapecó (SC). A preparação para a recepção de eventos ligados à Copa do Mundo de 2014 e aos Jogos Olímpicos de 2016 também precipitou casos de gentrificação nas cidades-sede.

Como a gentrificação afeta a (vida na) cidade

A cobertura feita sobre gentrificação (ou sobre seus agentes) fez com que o termo acabasse virando sinônimo de “hipsterização”, em grande parte por causa das características dos novos estabelecimentos comerciais e do estilo dos frequentadores dos bairros onde o processo acontece, mas, como vimos, a gentrificação tem um efeito mais grave e relevante: o desalojamento dos moradores de classes mais baixas.

Dessa forma, a gentrificação não afeta só os bairros onde ocorre, já que acaba provocando o deslocamento da população mais pobre para locais cada vez mais distantes do centro da cidade, que é onde estão concentrados equipamentos públicos e privados importantes, além da maior parte dos empregos.

Isso força um grande contingente de pessoas a fazer longos e demorados trajetos diários entre sua casa e seu local de trabalho ou estudo, o que gera problemas de trânsito e sobrecarrega o transporte público, para não falar no impacto negativo na qualidade de vida.

Cidade para quem?

Talvez a gentrificação fosse uma questão menor se vivêssemos em cidades em que postos de trabalho, infraestrutura urbana e equipamentos culturais estivessem distribuídos igualmente por todo o território.

Mas essa não é a realidade no Brasil: aqui, a gentrificação ajuda a aumentar a desigualdade ao reservar as melhores áreas da cidade para quem tem mais poder aquisitivo, enquanto os mais pobres são empurrados para regiões de estrutura mais precária. Segregação espacial e desigualdade social, assim, se conectam e se reforçam mutuamente.

Mais relevante do que definir se as mudanças em determinado bairro podem ou não ser chamadas de gentrificação – trabalho que já é feito por acadêmicas e acadêmicos do mundo inteiro – é entender como essas mudanças impactam a população, e especialmente, como podemos proteger os grupos mais vulneráveis da sociedade de seus efeitos negativos.

Indicações

Gentefied (série da Netflix)

Série sobre uma família de origem mexicana que vive nos EUA e vê seu pequeno restaurante ameaçado pela especulação imobiliária em seu bairro. 

Ela quer tudo (série da Netflix)

A série se passa no Brooklyn, em Nova York, uma área que lida com a gentrificação há décadas. Na primeira temporada, há um episódio dedicado ao tema.

Especial sobre gentrificação no UOL TAB, de 2015

Cidades Rebeldes, David Harvey (Martins Editora) 

O direito à cidade, ensaio de David Harvey publicado na Revista Piauí, em 2013

Guerra dos Lugares, Raquel Rolnik (Boitempo)

 

Carolina de Andrade é profissional das Humanas (bacharel em Ciências Sociais pela USP e mestre em Sociologia pela Universidade de Lisboa) e paulistana não praticante

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