De onde você veio?
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De onde você veio?

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Heranças são patrimônios transmitidos de uma geração para outra. Alguns deixam heranças em dinheiro, automóveis ou em imóveis, por exemplo. Para todos, porém, uma herança sobrevive por várias gerações porque está gravada nas células. A cor dos olhos, a textura do cabelo, o formato do nariz, o tipo sanguíneo ou a predisposição para desenvolvimento de uma determinada doença são heranças genéticas, assim como a cor da pele. O sequenciamento genético guarda informações valiosas sobre a ancestralidade de cada indivíduo ou família.

O gene é como um segredo que poucos sabem desvendar. Algumas características se manifestam, outras não. Logo, para descobrir o que herdamos e de quem herdamos, é preciso buscar mais de uma fonte, como exames, fontes históricas, fotografias e relatos orais.

Os registros referentes à população preta, no Brasil, foram escondidos e apagados, propositadamente ou não, por várias gerações. Como consequência, não é raro encontrar pessoas que não sabem o nome completo dos bisavós, ou onde nasceram os avós. Para completar, em um país em que mais de 5 milhões de crianças não têm o nome do pai na certidão de nascimento, a lacuna fica ainda maior. Existe uma pergunta para a qual a resposta é incerta para uma grande parte dos brasileiros: de onde você veio? 

Quantas ramificações teria a sua árvore genealógica?

É interessante observar como a família real britânica mantém um registro fiel dos seus ascendentes e descendentes. É possível encontrar não só a linhagem que está nos primeiros postos de sucessão ao trono como também aqueles que vieram antes: sabe-se tanto dos bisnetos de Elisabeth II e Philip quanto da ligação ancestral em comum que o casal tem, a rainha Vitória I, que nasceu mais de 200 anos atrás. Informação é, literalmente, poder.

E se você fosse fazer a árvore genealógica da sua família, conseguiria passar dos bisavós?

A família do mineiro Francisco França mantém um registro tão bem documentado que virou livro. As fotos e documentos contam a história da família Mascarenhas desde 1824, quando o patriarca e a matriarca saíram de Portugal, até 1989, quando o livro foi publicado: 

“A família do meu pai é super tradicional em Minas Gerais, alguns tios-trisavós fundaram uma empresa têxtil em 1872 e o grupo que controla é composto por descendentes. A família do meu pai é super ligada com esse negócio todo de tradição e nome. É meio nojento que a capa do livro é a Fazenda de São Sebastião, dessas típicas fazendas coloniais cheias de escravos. Eu fui lá algumas vezes (na época, sem senso crítico). Lembro de escutar que a senzala era na parte de baixo do casarão”.

A pernambucana Layla Sampaio Leite também tem uma raiz bem conhecida pelos familiares:

“O Pedro Sampaio veio para o Brasil para ajudar a cuidar da capitania de Pernambuco. Pedro Sampaio é da família da minha mãe, eu nem sei que grau [de parentesco] ele é, porque o cidadão chegou aqui no início das capitanias hereditárias. Os Sampaio são muito orgulhosos da própria história.”

Além da ascendência portuguesa, Pedro e Layla têm algo em comum: suas famílias são, majoritariamente, brancas.

O conhecimento da ascendência leva muitos brasileiros a tentarem pedidos de dupla cidadania em outros países. É o caso da família da paulista Regiane Costa e seu esposo:

“Meu avô é português, da Ilha da Madeira. A gente começou a juntar os documentos para a cidadania mas ainda não o fez, porque a gente teria que levá-lo até a embaixada, em Curitiba, e eu não acho justo fazer um senhorzinho debilitado viajar um dia inteiro de carro para uma coisa que, para ele, não tem benefício. Antes de começar, a gente decidiu tentar procurar as informações direitinho, porque talvez precisasse de alguns documentos vindos de lá. E aí a gente encontrou um site de uma igreja mórmon que você consegue encontrar o registro das pessoas que chegaram [no Brasil] de navio. Meus bisavós vieram com meu avô e os irmãos para cá no porão de um navio, trinta e tantos dias sem ver a luz do sol. Nesse site tem a foto dos documentos, o navio onde ele veio, tudo bonitinho. Aí, uma parte da família do meu marido é da antiga Iugoslávia [país que deixou de existir em 1991 e deu origem à Croácia, Bósnia, Herzegovina, Eslovênia, Macedônia do Norte, Montenegro, Sérvia e Kosovo] e a gente encontrou um dos tios. A gente não encontrou todos porque cada um ficou com um nome”.

Mesmo viajando em condições precárias, a família da Regiane não foi sequestrada e obrigada a entrar em navios que seguiam em direções desconhecidas. No desembarque, seus nomes foram mantidos e os documentos relativos à chegada foram guardados. Não eram pessoas escravizadas, não tiveram sua identidade apagada. Para as pessoas que buscam sua ascendência africana, o caminho é mais difícil porque ele é pavimentado pela escravidão e o racismo.

A passagem pela Kalunga

Conexão Brasil - África
Conexão DNA Brasil-África, por Beatriz Fernandes

 

A perda da identidade fez parte da escravidão e é arma do racismo até hoje. O rapto em países africanos, o tratamento desumano praticado durante a viagem, o batismo forçado e a proibição do uso da língua materna e dos costumes apagaram uma parte da história do povo preto.

Para a historiadora Mônica Lima, professora de História e coordenadora do Laboratório de Estudos Africanos da UFRJ, a história é ainda mais profunda:

“Para os escravizadores, não havia, no início, reconhecimento de identidade. Não havia uma intenção deliberada de vou apagar a identidade dessa pessoa para que ela desvincule da sua origem. Talvez pudesse ser, mais adiante, com o tempo, quando os escravizadores passaram a conhecer as sociedades um pouco melhor, perceberam a importância do nome, da vinculação familiar, pode ser que essa intenção [de apagamento] tenha existido. Mas o que havia, no início, é que os escravizadores sequer reconheciam nessas pessoas aspectos de humanidade, identidade, aspectos que lhes dariam vínculo e pertencimento familiar e de grupo. A Igreja era um agente vinculado ao estado que realizava os empreendimentos marítimos. E a Igreja Católica teve esse papel importante para referendar as expansões marítimas e era ela quem batizava esses cativos. Tratava-se de um ritual que os colocava dentro do universo de controle dessa força que não era apenas ideológica, era política e econômica. O batismo era uma forma de colocar essas pessoas sob controle desse novo universo ao qual elas estavam sendo submetidas. 

E continua:

Porém, como há uma distância entre a intenção e o gesto, se não havia desde o início uma intenção de apagamento, era o que de fato ocorria. Ao nomear esses africanos e africanas com nomes europeus ou lhes atribuir um nome de nação – porque quando eles aqui chegaram também recebiam nome de nação, que muitas vezes não era nem o nome do povo ao qual eles pertenciam e sim do porto de onde eles haviam embarcado em direção às Américas. Então, existiram os muitos ‘José Angola’, ‘Joana Congo’, ‘Maria Benguela’. Essa maneira de nomear era uma forma de apagamento e de atribuir uma nova identidade. A escravidão atlântica, representou – e não é à toa que a travessia marítima para as Américas ficou conhecida como a passagem pela Kalunga, que pode ser um termo vinculado à morte, era quase uma morte – uma morte simbólica, identitária, e uma morte desses africanos e africanas sequestrados de suas terras e escravizados. Então, essa morte também redundava em um renascimento. Num renascimento sob a condição da escravidão com esses outros nomes.”

Retorno pela genética

Numa espécie de desejo de retorno às origens, muitos brasileiros buscam nos testes de ancestralidade genética as respostas que se perderam no tempo. A Genera, empresa especializada em genética, oferece um teste de ancestralidade desde 2014 e vem percebendo um crescimento da demanda nos últimos anos:

“Não eram muitas pessoas que conheciam esse tipo de produto, o público que tinha mais conhecimento eram da área da genealogia. Por isso, o mercado era bem pequeno. O número de testes realizados começou a crescer em 2018, mas o auge está sendo o ano de 2020. Isso está se popularizando, as pessoas estão procurando conhecer e entender mais sua história e origens. Mas outro ponto que ajudou bastante também, foi a redução dos preços do teste”.

Funciona da seguinte forma: a empresa conta com um banco de dados que contém amostras de milhares de pessoas de diversas regiões do mundo. Esses bancos são usados pelos algoritmos que fazem a comparação estimam o percentual de ancestralidade de cada um. Quando você faz o teste, suas informações genéticas passam a integrar o banco de dados. Quanto mais pessoas fazem o teste, mais robusto o banco de dados fica.

O teste da Genera, por exemplo, analisa pelo menos 5 gerações do DNA de cada pessoa, mas tem o potencial de identificar porcentagens bem pequenas de muito mais que 10 gerações. É possível analisar o DNA mitocondrial, que fornece o material genético referente à ancestralidade da parte materna e o do cromossomo Y, que analisa a linhagem paterna. O DNA mitocondrial é encontrado em todas as pessoas. O cromossomo Y, porém, é geralmente encontrado em pessoas do sexo biológico masculino. Por isso, mulheres e homens trans que desejam conhecer a ancestralidade genética paterna precisam pedir para um parente próximo que possua o cromossomo Y, como pais, tios, irmãos e avôs.

O biólogo e pós-doutor em Genética Gustavo Monteiro Silva, professor e chefe de laboratório de pesquisa pela Duke University (EUA), analisa como positiva a popularização dos testes genéticos, mas aponta que também é preciso mostrar para as pessoas como interpretá-los:

“A popularização dos testes precisa estar associada a uma alfabetização científica da população para que as pessoas saibam exatamente o que está sendo oferecido e também possam interpretar os resultados recebidos com confiança. Isso é ainda mais importante quando as empresas também fornecem dados de associação genéticas com diversas doenças. Uma leitura correta dos resultados é o que permite as melhores soluções e planejamento para o futuro. No caso de testes genéticos para a ancestralidade, é necessário entender os pontos positivos e os limites de cada serviço, e assim poder ter um experiência mais satisfatória com o aprendizado sobre a sua ancestralidade”.

O jornalista Ernesto Xavier se considera uma pessoa privilegiada por ser de família negra com vários registros fotográficos do início do século 20, que contam boa parte da sua história:

Eu consigo montar uma árvore genealógica até bem mais extensa do que a maioria das pessoas, mas óbvio que tem um limite, que é o limite que a escradidão nos impôs, aí você não tem documentação, não tem registro e a gente não consegue alcançar tudo através apenas das histórias. Mesmo com tantas informações, sempre tive um desejo enorme de saber mais e de entender melhor essas origens, porque se você olha para os meus avós maternos, por exemplo, você vê que eles podem ter origens africanas bem distintas, mesmo que eles tenham vindo na mesma cidade; os dois vieram de Salvador no início da década de 50. Aí eu fui atrás disso [exame de ancestralidade genética] depois que um amigo fez”.

A entrega do resultado para a família foi na noite de Natal de 2017:

“Montei uma apresentação, peguei imagens de pessoas dos países e fui mostrando pra família, foi muito emocionante, foi surpresa total. Europa estava presente. Tinha África tanto da costa Leste como da costa Oeste, indígenas da América Central e da América do Norte e até Ásia. Foi muito legal porque eu passei a conseguir me enxergar melhor, olhar para mim no espelho e entender por que eu fui buscar os traços desses grupos étnicos que estavam representados no meu exame. E aí tem o lado do meu pai que também tem origens na Europa mas parte para o lado norte da África, tipo Marrocos e Argélia. São coisas muito interessantes que eu imaginava e que depois do exame deu uma precisão.”

O jornalista conta que o movimento de conhecer a sua ancestralidade reverberou por muito tempo na família:

“Agora, praticamente, todo mundo na família fez o exame. O que eu tinha no meu sangue tinha mistura de todos eles e aí agora eles sabem o que veio de cada um. Uma antropóloga fez um estudo sobre a minha avó materna e apontou uma possível ascendência na Etiópia, o que se confirmou no exame. A gente descobriu pessoas que a gente conhece e que, a princípio, não tinham nenhuma ligação familiar com a gente mas que no exame aparece que são nossos primos de 4 até 8 grau, porque tem essa coisa de mostrar parentesco com quem já fez o exame”.

Família
Okan, por Beatriz Fernandes

Perguntei para a Layla, dos Sampaio de Pernambuco, se havia pessoas negras na família:

“A maior parte da minha linha reta de ascendência é branca. Só não o meu bisavô, o pai da minha avó materna, ele era indígena.”

Perguntei sobre a etnia do bisavô. Durante a conversa, um pequeno momento de revelação:

“Apesar de passar por branca, minha avó tem alguns traços indígenas. Acho que o próprio pai dela não era muito inserido na cultura. E vozinha nunca deu atenção, apesar de adorar fazer rituais bem semelhantes ao de algumas tribos e ter passado a vida… Rapaz, eu acabei de perceber que ela tem fortes influências sim, só que nunca deu o nome. Oxe, ela detesta médico e para ela tudo dá pra curar com a natureza. Tipo, ela vai pro médico, mas se tiver um chá ela diz eu avisei que tal chá era melhor. Viveu a vida na agricultura sustentável. E isso era muito forte no pai dela”.

Essa matéria foi pensada, escrita e reescrita durante vários meses. Nesse tempo, a avó do Ernesto faleceu. Descobri, só nesse momento, que ele é neto de Chica Xavier, atriz e produtora que fez história no teatro, cinema e na televisão brasileira. Além disso, a atriz que fez a mãe de santo Magé Bassã, na novela Tenda dos Milagres, em 1985, também era mãe de santo na vida real e comandava o terreiro Irmandade do Cercado do Boiadeiro.

As religiões brasileiras com matriz africana são grandes guardiãs da história oral afrobrasileira e, de acordo com Mônica Lima, também promoveram a reconstrução do sentido de família para aqueles cativos que sentiam essa necessidade. A família de santo construída dentro da religião também é valorizada. O pai de santo, o irmão de santo, as ramificações do terreiro que você frequenta, são todos família.

“Esse corte com a relação familiar, com esse nome que vinculava a pessoa a sua família e sua ancestralidade era algo que atingia profundamente o espírito e a existência dessas pessoas, como elas se viam no mundo. Por isso, muitos escravizados e escravizadas, tão pronto chegavam, buscavam formar famílias. E essa é uma história que chega a ser comovente, quando a gente vai aprofundar e obter mais dados sobre ela. A busca da criação de laços familiares que vão ser reproduzidos, por exemplo, nas comunidades de terreiro, onde haverá pais, mães e irmãos. Laços familiares que vão ser constantemente buscados, negociados com os seus senhores. A possibilidade de constituir família, a criação de laços de parentesco, vai ser algo que sempre os cativos vão ter em mente. Reconstituir relações familiares, porque a família define a vida daquelas pessoas”.

A bisavó do meu bisavô

O tema da busca da ancestralidade me ronda há alguns anos. Cerca de 15 anos atrás, eu e minha família fizemos uma viagem para Minas para conhecer uma parte da família que só conhecíamos dos relatos do meu avô materno. Chegamos esperando conhecer a família Teixeira, mas somente lá descobrimos que não existia um ramo da árvore genealógica com esse sobrenome. Esse era o segundo nome do meu avô, que se chamava José Teixeira. Por isso, no nosso caso, Teixeira, que é um sobrenome português, é apenas um nome. O motivo de seu Teixeira, como era conhecido, ter passado para os filhos e esposa o seu segundo nome e não o sobrenome, nós não sabemos.

De vez em quando, eu sondo a minha avó paterna com essas perguntas. Na última vez, ela respondeu que os nossos antepassados vieram de Portugal, “mas de uma parte que só tem preto”. Imersa no assunto da reportagem, sonhei com uma pessoa chamada Eulália, uma mulher negra de vestes brancas que saía de dentro de um quadro em um museu, para dizer que ela era a bisavó do meu bisavô.

Se Eulália existe com esse nome, eu não sei. Mas ela agora é um símbolo meu. Quero um dia conhecer quem foram os meus ancestrais e poder contar a história de quem foi a bisavó do meu bisavô.

Para ler, ver e ouvir:

Água de Barrela – Eliana Cruz Alves

Em busca da sua ancestralidade, Eliana reconstrói a sua própria história que é um retrato da história do Brasil. No romance, Damiana comemora seus 100 anos e relembra histórias da época em que era lavadeira.

Documentário Brasil: DNA África

Documentário produzido pela Globonews que convida alguns participantes a conhecerem o país da origem ancestral apontado no teste genético.

Viagem com Proósito – Mamilos #235

Juliana Luna, uma das participantes do documentário Brasil: DNA África conta como foi a sua viagem para a Nigéria e fala sobre a importância da ancestralidade em sua vida.

Ericka Guimarães

Uma deusa, uma louca, uma feiticeira

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