Dandara Rudsan, mulher trans, negra e amazônida

Tem muita travesti vivendo no interior da floresta, nas beiras do rio e igarapés, trabalhando na agricultura familiar e alimentando esse país. Tem muita travesti no interior debatendo e trabalhando em tecnologias sociais, ciberativismo, política partidária, religiosidade, economia solidária, sustentabilidade ambiental,  educação, segurança digital e muito mais, tudo isso em nossos territórios que não são tidos como "urbanos" ou como "grandes centros". 

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Tive contato com a potência de Dandara Rudsan em uma live do Fundo Brasil sobre direito das mulheres. Em uma mesa virtual mediada por Flávia Oliveira, Dandara soltou o verbo sobre todos os percalços enfrentados pela mulher trans no norte do país. Desde aquele dia, coloquei Dandara na listinha de pessoas que eu gostaria de entrevistar para Sankofa.

O que é ser uma mulher amazônida? 

Gosto muito desse termo! Falando em significados, amazônidas são todas as mulheres que foram acolhidas pela Amazônia e decidiram plantar as raízes de suas lutas aqui, independente de serem ou não nascidas na região amazônica. Este conjunto de mulheres, daqui e de fora, juntas em luta, são as Mulheres Amazônidas. E de maneira mais ampla, ser amazônida é compreender que nossa luta é um desafio global, pois independente de nossas pautas subjetivas, a luta em defesa da Floresta Amazônica e seus Povos é a ‘ponta da lança’, o ponto de convergência de nossas vidas e ações diárias.”

Em que outras pautas as lutas se encontram?

Construir a luta feminista na Amazônia tem suas nuances específicas, quando falamos de nossas pautas. Aqui, independente da missão e objetivos dos movimentos, grupos e coletivos de resistência popular, a defesa da terra, do território, dos povos tradicionais e originários está no ponto norteador de todas as lutas. Se vamos discutir violência, extermínio, encarceramento em massa, por exemplo, obrigatoriamente temos que identificar onde essas agendas se conectam com a luta em defesa da Amazônia e seus povos e desta forma desenvolver as pautas que se desdobram em ações contra o racismo ambiental, enfrentamento a megaprojetos energéticos, mineradores e suas consequências, para citar alguns.”

Quais são as lutas das mulheres trans amazônidas? Por que elas se diferenciam das lutas da mulher trans do meio “urbano”?

Nossa luta é principalmente pela VISIBILIDADE de nossas resistências e de nossos corpos. O imaginário cis-hetero-normativo coloca o corpo travesti / transexual (assim como todos os outros corpos) em várias ‘caixinhas conceituais’ predeterminadas pelo patriarcado machista, que tentam transmitir a mensagem de qual ‘papel aquele corpo deve desempenhar na sociedade’. No caso das travestis, este imaginário ensina para a sociedade que nossos corpos são aqueles feitos para o ‘pecado’, para o sexo ‘despudorado’, ‘sujo’, para o asfalto noturno iluminado pela luz do poste. Este mesmo imaginário ensina que não existem travestis no interior da floresta, nas beiras dos rios e igarapés, que, no máximo, estes corpos nasceram nestes lugares e foram para os grandes centros por motivos diversos e que se forem para o caminho do ativismo político-social, as pautas destes corpos se limitam a debater HIV/AIDS, nome social e transfobia. E essa não é a realidade! Tem muita travesti vivendo no interior da floresta, nas beiras do rio e igarapés, trabalhando na agricultura familiar e alimentando esse país. Tem muita travesti no interior debatendo e trabalhando em tecnologias sociais, ciberativismo, política partidária, religiosidade, economia solidária, sustentabilidade ambiental,  educação, segurança digital e muito mais, tudo isso em nossos territórios que não são tidos como ‘urbanos’ ou como ‘grandes centros’. 

Vale ressaltar que a VISIBILIDADE é nossa principal pauta, pois uma vez que não somos notadas pelo resto da sociedade, fica muito mais fácil para o patriarcado nos matar, ‘sumir’ com nossos corpos e violar nossos direitos. O Brasil pelo 12º ano consecutivo, em 2020, foi o país que mais registrou assassinatos de travestis e transexuais no mundo. Imagina se fossem contabilizadas as companheiras e companheiros trans que são mortos no interior das florestas, no anonimato invisível causado pela construção cis-hetero-normativa desta sociedade?”

Como a pandemia atingiu as mulheres negras no Pará?

Aqui vou falar a partir do meu lugar, de mulher preta travesti amazônida. Para nós, a pandemia apenas amplificou problemas sociais que já atingiam nossas vidas bem antes do COVID-19. A maior parte do Estado do Pará é atingida por projetos capitalistas de energia, mineração e agronegócio. Em Altamira, por exemplo, já vínhamos sofrendo com a fragilização social trazida pela instalação da Hidrelétrica de Belo Monte, que precarizou tudo em nossa cidade, a saúde, educação, assistência social, tudo em sucatas. Veio a pandemia e potencializou esses males. Então, em termos de políticas sociais e assistência, nós já vínhamos na resistência e só precisamos continuar firmes. 

Agora, o que sobreveio de forma calamitosa foram as ondas de aumento da violência doméstica, feminicídios de mulheres, cis e trans, e do suicídio. Nos primeiros 4 (quatro) meses de 2020 o número de suicídios em Altamira já superava a média nacional. Os problemas psicológicos causados pela pandemia e violência doméstica são as consequências que estamos também priorizando.”

Em que projetos você atua no momento? 

Atitude TRANSversal: tecendo redes e ampliando horizontes, é um Projeto coordenado por mim e idealizado em conjunto com muitas companheiras negras, apoiado pelo Programa de Aceleração de Lideranças Femininas Negras Marielle Franco, lançado pelo Fundo Baobá Para Equidade Racial. O Projeto consiste em um conjunto de ações e intervenções que potencializam e ampliam minhas capacidades individuais enquanto liderança, ao mesmo tempo em que estas habilidades são compartilhadas e colocadas à disposição da comunidade negra como um todo. Com este Projeto já conseguimos estabelecer a Rede de Cooperação Negra e LGBTQI+ “Pretas & Coloridas”, que atualmente conecta lideranças feministas negras e LGBTs de 12 estados brasileiros e também de cidades e países como Bogotá (Colômbia), Dublin (Irlanda) e Indonésia. 

O segundo passo da Atitude TRANSversal foi a criação do primeiro laboratório de ciberativismo do médio Xingu chamado Zarabatanainfo construído por mulheres negras e LBTs, e que tem por foco o fortalecimento, ampliação e manutenção da REDE DE COOPERAÇÃO NEGRA E LGBTQI+ “Pretas & Coloridas”, visibilizando nossas lutas, causas, campanhas e demarcando nosso espaço no ativismo digital, que para nós é uma ferramenta inovadora e que estamos colocando em prática por meio destas ações.

Por fim e não menos importante o Projeto Atitude TRANSversal tem como objetivo me dar suporte material, psicológico e financeiro para a realização do Exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), para que eu possa alcançar a aprovação e ampliar meu campo de atuação e defesa de direitos humanos, falta pouco heim (risos).

Além deste Projeto, atuo hoje como AfroAssessora em Projetos e Formação, colaborando com a captação de recursos e desenvolvimento de projetos junto à 7 entidades de defesa dos direitos humanos no Estado do Pará, onde tocamos ações voltadas para o enfrentamento das consequências de megaprojetos, encarceramento em massa e violências de gênero, comunicação e liberdade de expressão, liberdade religiosa, direitos sexuais e reprodutivos.

Como você enxerga a luta pelos direitos humanos nos próximos anos?

Estou temerosa em relação a isso. Estamos sob o (des) governo de um militar sádico e irracional e que flerta todos os dias com o militarismo, autoritarismo e antidemocracia. A desvalorização diária dos direitos humanos é um reflexo desta necropolítica que foi implantada em nossa democracia. Assim devemos nos preparar para tirar este fascismo do poder, para que dessa forma possamos voltar a pensar em avançar na conquista dos direitos humanos, pois enquanto perdurar este verdadeiro “estado do sítio”, teremos que continuar resistindo para não perdermos os direitos até aqui conquistados.

A comunicação entre as entidades e as pessoas da comunidade precisa de várias estratégias, em razão da distância geográfica e da falta de internet de qualidade, por exemplo. Você pode falar um pouco dessas estratégias?

Para contornar estes aspectos do desafio, nós temos atualmente 3 (três) estratégias principais, sendo o Laboratório de Ciberativismo ZarabatanaINFO, que além de comunicar, tem o papel de oferecer formações em segurança digital, comunicação alternativa no rio e na floresta e direitos digitais. O envio de materiais impressos para as localidades mais distantes e isoladas foi uma prática que resgatamos principalmente durante a pandemia, onde precisamos enviar materiais informativos acerca da prevenção e cuidado em relação a COVID-19 e por fim, para alcançar aquelas companheiras mais distantes e sem sinal de internet, estamos implantando programa de rádio difusão que logo estará em plena ação levando informações e conectando mulheres negras e LGBT e suas comunidades.

Que outras pessoas você indicaria para que a gente possa acompanhar a luta das mulheres trans amazônidas?

Leia também: Governo de morte

dandara rudsan: mulher trans, negra e amazônida: Dandara é uma potência que luta pelos direitos humanos das mulheres trans na Amazônia. Gostou da entrevista? Contribua! Sankofa é um portal jornalístico com foco em Direitos Humanos. Se você gostou do conteúdo que acabou de ler e quer fortalecer o jornalismo independente, faça uma contribuição! O valor é você quem escolhe. Aponte a câmera do seu celular para o QR code ao lado ou clique na imagem para ser direcionado para o PicPay!
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Ericka Guimarães

Uma deusa, uma louca, uma feiticeira

1 Comment

  1. Dandara Maravilhosaaaaaa!!!!!

    Essa voz tem mesmo que ser potencializada pois é a voz de muitas de nós, travestis na Amazônia.

    Valeu minha irmã

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