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Como fazer descrição de imagem do jeito certo

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Tempo de Leitura: 8 minutos

Para criar conteúdo acessível na internet é fundamental saber como fazer descrição de imagem de forma que pessoas com deficiência visual ou com baixa visão possam entender por meio do leitor de tela.

O leitor de tela é um software que interage com o sistema operacional do computador para capturar informações em forma de texto e imagens com descrição e transformá-las em áudios por meio de um sintetizador de voz.

Ao se deparar com uma imagem, o leitor de tela não é capaz de descrever o contexto ou de que se trata; apenas informa que aquilo é uma imagem. Em sites, é possível alterar o atributo ALT da imagem e adicionar a descrição para que, quando o leitor de tela passe pela foto, reconheça o texto.

No entanto, isso não é uma opção quando se trata de redes sociais. Foi aí que surgiu a descrição de imagem no texto de apoio da postagem de imagens, tirinhas, gifs e conteúdos figurativos em geral, como forma de tornar o conteúdo mais amplo e acessível.

15 dicas de como fazer descrição de imagem

O podcaster Sidney Andrade, que é cego e publica seus textos no Medium, explica em uma thread no Twitter como criar boas descrições. Acompanhe o passo a passo e confira também as regras de como fazer descrição de imagem no Facebook, Twitter e Instagram.

Outras orientações sobre descrição de imagem na geração de conteúdo digital podem ser conferidas na Nota Técnica Nº 21/2012 do MEC (Ministério da Educação).

1. Descreva o que você vê na imagem

De forma objetiva, explique o que você vê de forma que seja suficiente para transmitir a ideia principal.

2. Não julgue ou opine sobre a imagem

Não diga que a imagem é bonita, feia, esquisita ou confusa, pois isso altera a maneira como a pessoa cega vai compreender a mensagem. Permita que ela tenha autonomia para julgar como se sente em relação àquilo.

3. Imagens cômicas precisam de descrições cômicas

Também não precisa agir como um robô, certo? Em caso de memes ou outros conteúdos de humor, descreva de maneira cômica sem confundir o leitor. Preocupe-se apenas em transmitir a ideia principal.

4. Identifique o tipo de imagem

Comece a descrição explicando qual o conteúdo que será transmitido – foto, gif, tirinha, etc.

5. Identifique os elementos da imagem

Para entender como fazer descrição de imagem com qualidade responda seis perguntas em relação ao conteúdo: O quê; Quem; Onde; Quando; Como; e Por que.

6. Use verbos para descrever as ações

Os verbos são essenciais para compreensão da mensagem. Descreva também as circunstâncias da ação respondendo às perguntas “Faz o que?” e “Como?”.

7. Use termos de acordo com o tom e intenção da imagem

Sem opinar, leve em conta o que a mensagem quer transmitir e descreva isso com termos adequados e neutros.

8. Descreva as cores

Por desconhecimento, muitas pessoas acreditam que é desnecessário descrever cores para pessoas que não enxergam. No entanto, as cores são parte importante do processo de descrição de imagem por duas razões principais explicadas por Sidney.

Primeiro, pessoas que perderam a visão possuem memória visual, o que faz com que as cores façam parte da construção de significados do mundo. Segundo, as cores não se tratam somente de estímulos luminosos, pois culturalmente são atribuídos significados a elas que também são aprendidos por pessoas que nunca enxergaram.

Um exemplo clássico é o vestido de noiva. É esperado que ele seja branco porque isso foi aprendido culturalmente, mas, se o vestido for preto, a quebra de expectativa é significativa. 

Além disso, as cores ajudam a referenciar uma imagem e atribuir identidade. É bem mais fácil pedir para um amigo te mandar uma foto em que você está de camisa azul do que fazer todo um malabarismo para explicar o que você quer.

9. Emoticons e emojis não precisam de descrição

Emoticons são sequências de pontuações que, combinadas, fazem alusão a uma imagem. Algumas plataformas substituem a combinação pela figura a que se refere, e isso é identificado pelo leitor de tela.

Da mesma forma que uma pessoa que enxerga normalmente precisou aprender que < 3 é um coração e : ) é um sorriso, uma pessoa cega também precisará aprender. Isso não chega a ser um problema, já que pessoas cegas, obviamente, não são incapazes de entender emoticons de pontuação, porém textos com muitos emoticons podem ser desconfortáveis de ouvir com o leitor de tela.

Já os emojis são imagens codificadas dos sistemas operacionais que são identificadas, em seus códigos, por descrições textuais. 

Assim, o leitor de tela consegue acessar esse código e não é necessário descrever a figura – mas é necessário bom senso, já que o excesso de emojis acarretará em excesso de descrições, tornando a leitura do texto cansativa.

10. Stickers e gifs precisam de descrição

Diferente dos emojis e emoticons, stickers são figurinhas que não possuem códigos com descrições textuais ou pontuações, portanto é necessário descrevê-los da mesma forma que você descreveria uma imagem comum.

As redes sociais não permitem embutir descrições em gifs, portanto é necessário descrever a sequência de ações e os elementos relevantes para que o sentido do movimento seja apreendido pela descrição.

11. Imagens em links de notícias não precisam de descrição

Notícias compartilhadas nas redes sociais costumam ser acompanhadas de uma imagem ilustrativa. O leitor de tela identifica o texto da manchete, não sendo necessário descrever a imagem na postagem, já que o conteúdo seria redundante.

A exceção é para os casos em que a matéria faz alusão direta à imagem, como quando cita uma foto vencedora de um concurso.

13. Transmita sua intenção com as selfies

Toda imagem tem uma intenção, e isso vale até para as selfies. Você quer mostrar o novo corte de cabelo? Ou quer compartilhar que se sente lindo hoje? Pense na intenção principal e em como fazer descrição de imagem sem ser extremamente detalhista.

14. Não use X e @ para gênero neutro

A linguagem neutra é um tema importante para lançar luz sob uma parcela da população que também é invisibilizada. Porém, ao usar o X ou @ no lugar da vogal (como “amig@” ou “maravilhosx”) o fluxo da pronúncia é quebrado, o que gera um ruído e compromete o trabalho do leitor de tela.

Nesses casos, o ideal é substituir a vogal por E – como em “todes” ao invés de “todas” ou “todos” – ou usar palavras que não possuem gênero. 

15. Sinalize antes da descrição

Antes de descrever a imagem use expressões como “descrição da imagem”, “acessibilidade da imagem”, “imagem acessível” ou até hashtags como #TimelineAcessivel e #InstaAcessivel.

Essa atitude, além de acessível, é educativa para quem tem desconhecimento sobre o assunto e pode também se tornar um produtor de conteúdo acessível na internet.

Extra: Não use #PraCegoVer como sinalização

Em outra thread, Sidney opina sobre o uso da expressão #PraCegoVer antes da descrição da imagem.

Segundo ele, assim como mulheres não se sentiriam confortáveis com homens determinando os termos do discurso anti machista e pessoas trans não gostariam que pessoas cisgêneros determinassem os termos do discurso anti transfobia, pessoas cegas não devem gostar e aceitar que pessoas sem deficiência visual determinem os termos da luta anti capacitismo.

A origem da hashtag é bem intencionada, porém mal executada, pois se presta a ajudar nos termos de alguém que enxerga e que, por trabalhar com pessoas cegas, pressupõe que pode determinar o que pessoas cegas querem.

“Pessoas sem deficiência falando e agindo em nome das pessoas com deficiência é o suprassumo da história do movimento pró direitos das PCD no mundo inteiro. Até hoje, pessoas com deficiência são tratadas como incapazes de cuidar de si mesmas e, portanto, precisam ser tuteladas”, lembra Sidney.

#PraCegoVer seria uma tag condescendente, pois foi pensada por alguém que não experimenta a vivência de ser cego e acredita que “ver” é o centro da experiência humana na Terra.

Além disso, cegos não querem ver, e sim saber o que há na imagem descrita. O uso da hashtag parte do pressuposto de que a visão é a experiência hegemônica e toda aquisição de conhecimento deve passar pela visão

“Apesar de sua boa vontade, usar #PraCegoVer é reforçar um capacitismo que diz: ‘essas pessoas não enxergam, o certo é enxergar. A gente vai fazer elas enxergarem, nem que seja no nível do simbólico, do semiótico, do polissêmico. Nem que seja pela metáfora, a gente cura vocês’”, finaliza.

Como fazer descrição de imagem: vamos à prática

Confira 8 exemplos de descrição de imagens diversas:

Descrição: imagem de casal de mulheres negras com deficiência sorrindo, de mãos dadas. Atrás, uma mulher de cabelos longos e crespos usando luvas de compressão e olhando com carinho para a mulher à sua frente, que tem cabelos curtos e está sentada em uma cadeira motorizada, olhando para a câmera.

Disabled And Here Collection

Descrição: imagem de uma mulher filipina usando máscara de tecido preta e headphones vermelhos. Ela está sentada do lado de fora de um café, em frente a uma janela e escreve em um caderno. Há plantas ao seu redor.

Disabled And Here Collection

Descrição: foto de pessoa indígena não-binária sentada em uma cadeira, amarrando o cadarço de suas botas. Usa roupas pretas, cabelo trançado longo, tem tatuagens e uma prótese de perna.

Disabled And Here Collection

Descrição: foto de quatro pessoas com deficiência ao redor de uma mesa durante uma reunião. Uma mulher negra, sentada em um sofá, gesticula enquanto fala com as outras três: uma pessoa asiática sentada em uma cadeira de rodas, uma pessoa não-binária sentada em uma cadeira e uma pessoa negra não-binária em pé, apoiada em uma bengala e segurando uma pasta de papel.

Freepik

Descrição: foto de um elefante africano adulto visto de frente, ao ar livre, em meio à savana. Ele olha diretamente para a câmera.

Freepik

Descrição: ilustração digital de palmeiras e folhas monocromáticas em tons de azul, amarelo e rosa sobre fundo branco com textura de ondas.

Safernet

Descrição: mulher em close ao ar livre durante a noite. Ela usa óculos de armação grossa, batom vermelho e assopra uma vela tipo faísca.

via GIPHY

Descrição: gif da juíza americana Ruth Bader Ginsburg discursando em um púlpito com a palavra “AMAZING” em letras maiúsculas aparecendo como legenda. 

Aqui no Sankofa nós assumimos o compromisso com a diversidade e a inclusão. Por isso, as pautas sobre pessoas com deficiência estarão sempre por aqui. Além disso, os textos com essa temática são escritos por PCD. É uma parceria incrível com a Sonobe Conteúdo <3

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Ericka Guimarães

Idealizadora de Sankofa. Jornalista. Daquele pessoal dos Direitos Humanos.

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