Foto em preto e branco. Homem negro beija outro homem negro na bochecha, com pose levemente inclinadapara trás. Apenas o homem que está sendo beijado olha para a câmera.
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Afetividade da bicha preta

Muitos dirão que é questão de gosto, que ninguém pode ser obrigado a se envolver com alguém que não se sinta atraído, mas não seria também a preferência uma construção social? Por Henrique França

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Tempo de Leitura: 4 minutos

Qualquer um que tenha gastado pelo menos uma horinha navegando pelas redes sociais nos últimos dias provavelmente ficou sabendo da história de “cancelamento” dos influencers, seja lá o que isso signifique, Gustavo Rocha e Matheus Mazzafera. Para desprazer de vocês mas satisfação da construção do meu argumento, vou transcrever um trecho dos impropérios proferidos pelos dois ao falarem sobre o tipo de homem que sentem atração: 

“Quanto mais estragado melhor. Para namorar não, mas eu sinto atração mesmo é sempre pelos ‘maloka’ tatuado”, disse Gustavo; “Se eu fosse desenhar, eu gosto dos tatuados, mas meu ex-namorado é loiro e branquinho. Eu pago a minha língua. Se me falarem que eu posso escolher, eu vou escolher tipo o Livinho, o MC Don Juan, mas eu acabo namorando com o Luciano Huck”, afirmou Matheus. 

Para vocês essa fala também parece absurda e preconceituosa? Pois é, esse é meu cotidiano. 

O Brasil é historicamente um país que aplica processos opressivos de forma primorosa. O fato de termos uma pessoa LGBT morta a cada 23h, ou de 75% dos abatidos em operações policiais serem negros, explicita como as engrenagens normatizadoras do Estado e da sociedade trabalham bem em terras tupiniquins. 

Entretanto, como se as agressões físicas não fossem suficientes, estas dinâmicas de opressão se sofisticaram ao longo tempo a tal ponto que ultrapassam os marcadores da materialidade, violando também subjetividades e identidades de todos aqueles que ousam divergir da norma branca, masculina, heterossexual e cisgênera que domina as relações sociais e instituicionais locais. 

Quando uma figura pública, seja ela de internet ou qualquer outro meio, acha razoável se pronunciar como os dois rapazes citados acima, quem opera é a faceta do racismo que hipersexualiza, desumaniza e pretere afetivamente corpos negros. É a velha máxima machista que separa mulheres entre as para pegar e as para casar transplantada de forma cirúrgica para o meio gay. 

Muitos dirão que é questão de gosto, que ninguém pode ser obrigado a se envolver com alguém que não se sinta atraído, mas não seria também a preferência uma construção social? Sociedades antigas, por exemplo, consideravam o corpo gordo atraente e desejável, isso porque os valores que orientavam estes grupos davam a entender que esta conformação física era a ideal. Hoje não é preciso ir muito longe para ver qual é o padrão de corpo e comportamento que nossa sociedade entende por desejável. 

Sendo assim, e partindo do fato de que fomos um dos últimos países a abolir a escravização negra no ocidente, e em consequência, retardatários no processo de concessão, ao menos formal, de humanidade a essas figuras, não dá pra acharmos que encarar os homens negros como indignos de afeto é uma mera questão de gosto. 

As relações sociais em um determinado ambiente vão sempre e inevitavelmente estar embebidas nos valores que estruturam aquele local. Se ainda somos extremamente racistas, machistas e lgbtfóbicos como as estatísticas de violência e demais demonstram de forma cabal, é evidente que o nosso fazer, seja em qual âmbito for, está orientado por esses marcadores. 

Sabe aquele teste de verificar quantos negros tem num ambiente e em que funções eles estão? Faça isso também com sua afetividade. Com quantos negros você se envolveu a sério? Quantos foram além de uma transa casual?

O meio gay é infelizmente atravessado por diversas opressões. Somos violentados cotidianamente por conta de nossas orientações sexuais e identidades de gênero, mas isso não isenta as pessoas que fazem parte deste grupo de reproduzirem outras formas de violência. 

Durante os mais de 300 anos de escravização negra no Brasil, o corpo dos homens africanos e seus descendentes eram, além de explorados para realização de todo tipo de tarefa, utilizados para a produção de mais escravos. Existem relatos de um desses negros que teve 200 filhos em uma fazenda do interior de São Paulo, por exemplo!

Desde então, a ideia de que o corpo negro masculino é a representação da virilidade, exemplar de uma máquina sexual natural nunca foi desconstruído e reverbera até hoje, tanto no meio hetero quanto homossexual. 

A bicha branca, malhada, que mora em Santa Cecília em um apartamento de chão de taco, está muito mais próxima do ideal dominante e por isso tem internalizado em seu imaginário uma suposta superioridade em relação a bicha preta, afeminada e periférica. Essa última, infelizmente, vem servindo apenas à fetichização e ao extravasamento do desejo carnal. 

Em tempos de “Black Lives Matter” e tantas outras manifestações políticas que procuram garantir direitos e proteção a pessoas negras pode parecer inócuo falar sobre afeto e sexualidade, mas entendo que o fazer político macro é em certa medida reprodução do cotidiano micro. 

Não entrando no mérito dos relacionamentos inter raciais, mas discutindo os impactos políticos que relações afetivas, seja entre negros ou com pessoas de outras etnias têm, me parece que amar um preto é uma ruptura em potencial no modo de controle social e opressão que as elites brancas masculinas nos impõem. Quanto mais negros amados, mais rachaduras nos valores vigentes somos capazes de criar. 

E como disse antes, se mudam os valores, muda a sociedade.

É importante que a bicha preta consiga se enxergar como digna de afeto e não se sujeite e contente com as migalhas que aqueles conectados à lógica da branquitude eventualmente acham por bem nos oferecer. 

A gente quer amar, ser amado e protegido. O amor é sim revolucionário e pode fazer parte do processo de valorização de vidas negras. 

Não só nesse dia 20, mas em todos os outros momentos do ano levante sua cabeça e beije seu preto em praça pública, viado! 

Henrique França é bicha preta, servidor público, militante dos direitos humanos e estudante de direito. Tem a luta da superação do racismo e lgbtfobia como norteadores de sua atuação em espaços de construção coletiva

Ericka Guimarães

Uma deusa, uma louca, uma feiticeira

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