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A entrevista mais longa da história

Acompanhar a Sophia pelas redes sociais é como um afago na alma. As fotos são bonitas, o conteúdo é instigante e a vida da personal travel nômade digital é muita coisa, menos monótona. A entrevista mais longa da história, de acordo com a própria Sophia, durou 2 meses entre mensagens de texto, áudio em fuso horários diferentes e um perrengue na vida da entrevistada.

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Tempo de Leitura: 6 minutos

Eu não lembro exatamente como ou quando comecei a seguir a Sophia no Twitter. Só sei que fiquei encantada com tudo que ela falava, com as fotos que postava, com as viagens que fazia. Ela não sabe, mas eu tenho uma aba chamada “whoisophia viagem” para não perder os relatos sobre o assunto. Aliás, a thread “1 like = uma curiosidade sobre os países africanos que visitei” é imperdível.

Atualmente, Sophia mora na Tailândia. Passou um tempo em Buenos Aires fazendo um mestrado em Direitos Humanos. Antes disso, fez um intercâmbio em Maputo e viajou para vários países da África. Hoje, depois de mais de 15 países visitados, ela se considera uma mulher nômade, mas que não planejou muito para que isso acontecesse.

“Eu nem sabia o que era nômade. Quando eu fui fazer o voluntariado em Moçambique, me chamaram para o trabalho que eu faço hoje, que é remoto. Eu aceitei e já comecei a trabalhar de lá, com fuso horário diferente e 100% online. Um ano depois, a galera estava falando em nomadismo, eu estava morando em Buenos Aires eu fiquei, tipo… eu preencho todos os pré-requisitos para ser nômade!”.

A chata dos Direitos Humanos

Existe uma bagagem que a gente leva para todo lugar que vai. É a mais pesada de todas. Ela está cheia de aprendizados e influencia os nossos pensamentos e decisões, inclusive, os locais que você escolhe para conhecer.

“Não tem como chegar em um lugar e não reparar. Tá tudo atrelado, tanto Direitos Humanos quanto turismo sustentável, o impacto que a gente tá deixando no lugar, a questão dos animais. É algo que eu estou sempre pensando. As pessoas falam nossa, mas que chata, porque eu não consigo ignorar isso. Não dá pra passar pelos lugares, só usufruir e não refletir sobre as coisas que acontecem.”

O retorno e as raízes

Eu não sei se você já teve a oportunidade, mas acompanhar uma mulher preta numa viagem à África é emocionante. Viver deve ser indescritível.

“Tive a sensação de voltar pra casa. Foi a primeira vez na vida que eu não era minoria em algum lugar. Senti uma reconexão muito forte com essas raízes perdidas. Aprendi o quanto é importante estar cercada de pessoas parecidas com a gente, o quanto isso faz com que a experiência de existir seja menos solitária”.

Arrepiou aí?

Falando em raízes, cabelo é um tema importante na vida da Sophia. A mulher que hoje exibe o seu cabelo afro com toda beleza e imponência que ele merece, foi também uma vítima do racismo da nossa sociedade, que tenta desmerecer a beleza da pessoa preta e minar a autoestima de todos aqueles que carregam traços dos nossos ancestrais africanos.

“Eu alisava o meu cabelo desde os 10 anos. Quando eu entrei na faculdade, eu comecei a ver meninas com o cabelo natural e eu comecei a ter um sentimento de esse cabelo [alisado] não combina comigo. Pensei: tá, se fica bom nelas, talvez fique bom em mim. Cheguei em casa e coloquei no Google: ‘como voltar a ter o cabelo natural’. E aí eu descobri todo um universo de meninas em transição capilar. Eu sempre achei que o cabelo era um problema meu. Como eu cresci rodeada de pessoas brancas, todo mundo tinha o cabelo liso. Foi aí que eu percebi que um problema que eu achava que era individual, na verdade, era coletivo, estrutural. Passei pela transição e nesse período eu estudei muito, não só sobre cabelo mas também sobre o motivo de a gente achar que tinha que alisar o cabelo. Eu falo que foi um processo de transição capilar e também de vida, de entender por que eu achava que meu cabelo era feio e de entender por que a gente é ensinado a isso”. 

O Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) foi a exposição fotográfica Raízes, que conta a importância do cabelo na construção da identidade da mulher negra. A exposição ultrapassou as fronteiras da Universidade de Brasília e do Distrito Federal, onde Sophia cresceu (ela é goiana!). Esteve no Rio, em Alagoas, terra de Zumbi dos Palmares e foi parar na Alemanha.

Bom dia, Brasil, boa noite, Tailândia

Na Tailândia desde março, Sophia presenteia seus seguidores com fotos de tirar o fôlego de tão bonitas. Templos, feiras, praias paradisíacas e cafés simpáticos fazem parte do feed de quem a acompanha. Março também foi o mês em que o coronavírus se mostrou como uma pandemia, ou seja, uma doença que alcança populações de vários países e continentes.

Com as fronteiras fechadas e as medidas de isolamento social, Sophia ficou “ilhada” em Phi Phi, um lugar que eu só acredito que existe porque ela estava lá. Caso contrário, eu diria que é obra de artista ou de mãos habilidosas no Photoshop. Para ela, voltar para o Brasil não era uma opção. 

“Não existe nenhum país que eu gostaria de estar nesse momento louco que estamos todos vivendo. Desde que eu cheguei aqui, mesmo com lockdown e as restrições para viajar, eu me senti extremamente segura, tive todo suporte necessário. Agora, a pandemia aqui está controlada, então, a gente tem toda a liberdade de ir e vir. Eu me sinto em um universo paralelo”.

A Tailândia foi o primeiro país, depois da China, a confirmar um caso de infecção por Covid-19, em janeiro. Em março, foi registrada a primeira morte. Em setembro, o país completou 100 dias sem casos de infecção local de Covid, enquanto o Brasil amarga as mais de 140 mil mortes causadas pela doença. 

A pandemia e as fronteiras fechadas trouxeram uma situação nunca vivida pelas autoridades tailandesas e pelos turistas que decidiram ficar no país. Como voltar para o seu país de origem quando ele não é tão seguro quanto o que você está agora? Como lidar com as milhares de pessoas com visto de turista que não tem para onde ir?

Aqui, a nossa conversa que acontecia em fusos horários diferentes, com uma indo dormir enquanto a outra estava acordando (a Tailândia está 10 horas à frente de Brasília), precisou de um pause. A nossa viajante foi resolver burocracias do visto em uma cidade no extremo sul do país, mais de 700 km distante de Chiang Mai, cidade em que ela estava instalada.

A entrevista ficou suspensa mas eu não deixei de acompanhar as atualizações pelo Instagram. Depois de duas semanas de perrengue, incerteza e grana curta, ela conseguiu o visto, que foi comemorado por todos nós que somos seguimores de Sophia.

“Para pedir o visto de estudante você tem que sair do país e voltar. Só que como estão todas as fronteiras fechadas, não tem como sair. O próprio governo ficou confuso sobre como seria esse processo. Cheguei a conclusão que a Tailândia é um país bagunçado, em questões burocráticas. O Brasil não colaborou nem um pouco, porque vários países da América Latina liberaram uma carta que dizia que as pessoas estavam mais seguras fora. A função do meu governo é garantir que eu, como cidadã, esteja segura. Os países fizeram essa carta e o governo tailandês estendeu o visto dessa galera. O Brasil se recusa a fazer a carta porque né, negacionista da pandemia. Por isso eu tive que passar por esse processo”.

Passado o susto, temos a nossa viajante de volta a Chiang Mai, com suas fotos e vídeos de comida caseira, da gata manhosa que ela cuida e Outlander no conforto da sala.

Sophia é uma inspiração não só pelas fotos ou pela coragem de enfrentar o mundo, mas também pela forma saudável que ela produz conteúdo na internet. Muito se fala sobre o poder que as redes sociais têm sobre os seus usuários, mas pouco se fala sobre a nossa parcela de responsabilidade. Temos que seguir pessoas que nos fazem bem. Tipo uma uma mulher preta que mostra que, sim, a gente pode tudo. Que tem afeto na fala, que sabe do alcance da sua voz.

“Quando eu comecei a compartilhar as minhas coisas e a profissionalizar o meu Instagram, eu sabia que eu ia me tornar uma referência e da importância e o peso que isso tem. Eu levo isso muito a sério porque o meu objetivo é fazer com que outras pessoas negras percebam que é possível existir de outras formas. Tenho muito cuidado com o que eu falo e a forma que falo, porque sei que as pessoas realmente me escutam, não dá pra ser leviana e achar que é qualquer coisa”.

Uma mulher que conseguiu fazer a sua primeira viagem solo internacional com a ajuda de uma vakinha, com certeza conseguiria conquistar uma audiência em torno dela. Se você ainda não é um dos milhares de seguimores da Sophia, não sabe o que está perdendo.

Ericka Guimarães

Uma deusa, uma louca, uma feiticeira

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