agro não é pop: imagem de uma colheitadeira em um campo de trigo

5 vezes que o agro não foi pop

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O papa pode até ser pop, mas o agro definitivamente não é. O setor, que é considerado um dos pilares da economia brasileira, foi o único da atividade econômica nacional a crescer no primeiro trimestre de 2020 em comparação ao quarto trimestre de 2019, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Mesmo com a pandemia de Covid-19 em 2020, o PIB do setor agro tinha previsão de crescer 9% em 2020 e 3% em 2021, além de ter gerado quase 103 mil novos postos de trabalho.

Parece ótimo – não à toa criou-se o slogan “Agro é pop, Agro é tudo” –, no entanto, todo esse crescimento exige um custo alto, que é pago em forma de violações aos direitos humanos e ao meio ambiente

Confira cinco vezes em que o agro não foi pop:

1 – Queimadas na Amazônia e o Dia do Fogo

Em 2019 houve um aumento de 30% no número de queimadas registradas na Amazônia em comparação ao ano anterior, segundo dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Em números exatos, foram registrados 89.178 focos no bioma, contra 68.345 no período anterior.

A queima é uma estratégia amplamente utilizada para limpar áreas para produção agrícola ou criação de gado, mas também para aumentar as áreas desmatadas e convertê-las em áreas produtivas. 

A falta de ações protetivas e as constantes críticas do governo Bolsonaro às políticas ambientais aumentam a sensação de impunidade para aqueles que devastam nossas florestas.

Em entrevista para o Uol, o biólogo Rômulo Batista, da campanha de Amazônia do Greenpeace, reforçou que todo incêndio na Amazônia é resultado da ação humana. O momento mais tenso foi em agosto, quando foram registrados 30.901 focos de incêndio, um aumento que ocorreu devido ao Dia do Fogo.

O Dia do Fogo aconteceu em 10 de agosto, quando produtores rurais da região Norte organizaram via WhatsApp um ataque ambiental para demonstrar apoio ao presidente Jair Bolsonaro. Entre os dias 10 e 11 foram detectados 1.457 focos de calor no Pará, contra 101 contabilizados um dia antes.

2 – Mortes em silos

Uma reportagem exclusiva da BBC News Brasil, publicada em 2019, revelou um dos lados mais perversos do agro: as mortes silenciosas de brasileiros soterrados em armazéns de grãos

Os casos são abafados e mostram descaso com a vida dos trabalhadores, já que existem medidas de prevenção amplamente conhecidas e que não são adotadas.

A reportagem cita que esse tipo de acidente em armazéns agrícolas tem se tornado frequente conforme o agronegócio brasileiro bate recordes, o que mostra um efeito colateral pouco falado da modernização do campo. 

Segundo o levantamento, de 2009 a 2018 ao menos 106 pessoas morreram em silos de grãos no Brasil, a grande maioria por soterramento.

Os acidentes fatais ocorreram em armazéns de cooperativas, fazendas individuais e silos de multinacionais que comercializam grãos, conhecidas no setor como traders. Em seis casos, os mortos não eram trabalhadores, e sim parentes que os acompanhavam e jamais poderiam ter entrado nos silos.

Silos de milho e soja predominam, mas também houve mortes em armazéns de arroz, café, açúcar, ração animal e feijão.

3 – Assassinatos e massacre no campo

Os números são terríveis, segundo a CPT (Comissão Pastoral da Terra). Em 2017 foram 70 assassinatos no campo,  um aumento de 15% em relação a 2016, e dentre essas mortes foram quatro massacres nos estados da Bahia, Mato Grosso, Pará e Rondônia. 

A CPT reconhece como “massacre” casos em que um número igual ou maior que três pessoas foram mortas na mesma ocasião e elenca os casos na página Massacres no Campo

Ainda em 2017, a CPT destacou a suspeita de um massacre de indígenas isolados no Vale do Jariri, no Amazonas, com mais de 10 vítimas. 

Segundo os dados daquele ano, os assassinatos de trabalhadores e trabalhadoras rurais sem-terra, de indígenas, quilombolas, posseiros, pescadores, assentados, entre outros, tiveram um crescimento brusco a partir de 2015, com o Pará liderando o ranking com 21 pessoas assassinadas, seguido por Rondônia, com 17, e pela Bahia, com 10.

Em 2019 foram 29 assassinatos em conflitos no campo, entre janeiro e dezembro de 2019, sendo 25 deles na Amazônia Legal e o Pará liderando o ranking com 12 assassinatos, seguido pelo Amazonas, com 5, e Mato Grosso e Maranhão, ambos com 3. 

Os trabalhadores rurais, sem terras e assentados, entre outros, somam 21 mortes, e 8 indígenas foram assassinados, 7 deles lideranças – o número mais alto de assassinato de lideranças indígenas nos últimos 11 anos.

4 – Diversas formas de violência no campo

Ainda de acordo com os dados da CPT, o relatório Conflitos no Campo Brasil 2018 registrou o mais alto número de mulheres que sofreram algum tipo de violência no campo desde 2008, com 482 vítimas, sendo 36 ameaçadas de morte. 

O ano também foi o de maior número de conflitos por água, atingindo 73.693 famílias, sendo 85% nas comunidades tradicionais.

Em 2019 uma reportagem da Folha de São Paulo mostrou que 66 projetos de assentamentos, que correspondem ao tamanho do município do Rio de Janeiro, teriam capacidade de abrigar 3.862 pessoas se a reforma agrária não estivesse paralisada. Quem sofre com isso são as comunidades, acampamentos, assentamentos e territórios tradicionais.

No Paraná, em 2019, foram realizados nove despejos em seis meses, deixando sem casa mais de 450 famílias, segundo o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST). 

Na Bahia, foram realizados despejos violentos em diversos acampamentos, que desabrigaram 700 famílias em favor da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf).

5 – Casos frequentes de trabalho escravo

Em 2018, antes do governo Bolsonaro interferir na fiscalização do trabalho escravo, o Ministério do Trabalho, revelou que o agronegócio é o setor que mais submete trabalhadores à condição análoga à escravidão. 

Naquele ano, a lista que reúne nomes que cometeram a ilegalidade recebeu 37 novos empregadores, sendo 16 deles donos de fazenda ou madeireiras – um total de 43%.

Dois casos marcantes foram o da Fazenda Agropecuária Sorriso, em Rio Branco (AC), na qual 13 trabalhadores privados da liberdade de ir e vir foram resgatados, e dos 5 trabalhadores resgatados em Uruará (PA) que eram ameaçados por pistoleiros contratados pelo proprietário da serraria M. A. de Souza Madeireira. Eles eram obrigados a trabalhar 12 horas por dia sem uso de equipamentos de segurança.

Ainda segundo o MT, o agro foi campeão absoluto na utilização do trabalho escravo entre os anos de 2003 e 2014, com praticamente 80% dos trabalhadores libertados do trabalho em lavouras, plantação de cana, desmatamento e pecuária – só esta última responsável por 30% dos casos.

Esses são, somente, 5 tópicos demonstrativos sobre o lado do agronegócio no Brasil que costuma ser ignorado pelos defensores da expansão do setor. Todos os dias violações acontecem e é urgente se quebrar a ideia de que o agro é pop. Já conhece o nosso blog? Visite e leia vários posts sobre direitos humanos, acessibilidade e vários outros assuntos!

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